Estupra-se uma moça de 16 anos, em uma favela do Rio, vítima de 33 tarados que, com certeza, tiveram castrada sua escolaridade e qualificação profissional devido ao descaso com que os nossos políticos tratam a educação.

Estupra-se a cidadania com unidades de polícia pacificadora que adentram comunidades carentes disparando a esmo balas que ceifam vidas e são computadas como “perdidas”.

Estupra-se o futuro de milhares de crianças e jovens que, na periferia, veem chegar a polícia e o narcotráfico, mas não escolas, teatros, cinemas, salas de dança, praças de esportes, oficinas musicais e literárias.

Estupra-se a nação quando se lhe impõe uma meta fiscal que amputa o orçamento da saúde e da educação, da cultura e dos programas sociais.

Estupra-se a democracia quando políticos se locupletam em negociatas, estufam os bolsos de propinas, conspiram para sabotar a Lava Jato e ainda promovem um golpe parlamentar para tentar desviar o rumo das investigações.

Estupra-se o contribuinte honesto quando o ajuste fiscal não cria o imposto progressivo e são mantidas desonerações tributárias e juros baixos para empresas e latifúndios que se gabam de sonegar.

Estupra-se a decência pública quando o ministro da Educação recebe um ator de filmes pornôs que lhe propõe, em nome da “moralidade ideológica”, vetar nas escolas qualquer tema de conteúdo político.

Estupra-se a possibilidade de se evitar estupros quando peças publicitárias e programas de TV reduzem a mulher a um atraente naco de carne destinado a servir de isca ao consumismo.

Estupra-se a vida afetiva saudável quando a sexualidade resvala para o prazer descartável a cada nova experiência, e os inacessíveis padrões de beleza causam frustração

Estupra-se a moral dos jovens quando são mais estimulados à competitividade que à solidariedade; ao alpinismo social que ao interesse pelo bem comum; a valorizar mais o mercado que os direitos humanos.

Estupra-se a subjetividade de uma geração quando, na família e na escola, não há formação ética, a espiritualidade é confundida com religião e as utopias libertárias estigmatizadas como ultrapassadas e nocivas.

Estupram-se os valores quando as amizades virtuais prevalecem sobre as reais, e os apetrechos eletrônicos servem de biombo para se evitar a sociabilidade, a partilha, a ação comunitária, resguardando o usuário na redoma do individualismo egolátrico.

Estupra-se um país quando seus dirigentes são, em maioria, estupradores de cofres públicos, da ética e da democracia, dedicados a fazer na vida pública o que se habituaram a fazer na privada...

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.