A Peguin-Companhia das Letras acaba de lançar nova edição do clássico Confissões, de Santo Agostinho (354-430), em tradução de Lorenzo Mammì.

É a primeira autobiografia da literatura ocidental. Na falta de Freud, e sob o peso de sua vida pré-cristã, Agostinho escalou todos nós, leitores, como seus terapeutas. Ele se despe aos nossos olhos nos treze livros que compõem a obra.

O autor já passara dos 40 anos e era bispo de Hipona (na atual Argélia) ao iniciar a redação. Descreve episódios bizarros, como a recusa à proposta de pagar um adivinho para vencer um concurso de poesia dramática.

A espiritualidade de Agostinho é acentuadamente evangélica, de quem se sente “morada divina” (João 14, 23), e crê que “tu não abandonas tua criatura como eles abandonam seu Criador” (V, II). “Onde estava quando te procurava? Tu estavas diante de mim, mas eu me afastara até de mim mesmo e não me encontrava, quanto menos a ti!” (V, II). “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Mas eis: estavas dentro e eu estava fora” (X, XVII, 38).

Mudam os tempos, não os costumes! Agostinho faz severa crítica aos discursos demagógicos: “Como eu era miserável e de que maneira fizeste com que sentisse minha miséria naquele dia, quando me preparava para declamar o elogio do imperador (no décimo aniversário do reino de Valentiniano II, em 385) em que diria muitas mentiras e mentindo ganharia a aprovação dos entendidos” (VI, VI, 9).

Confessa a inveja que sentiu de um mendigo bêbado que cantava e ria em uma rua de Milão: “Ele era mais feliz, sem dúvida, não apenas porque transbordava de alegria, enquanto eu era dilacerado por preocupações, mas também porque ele ganhara o vinho augurando o bem, enquanto eu buscava a vanglória mentindo” (VI, 10).

Em exaltação ética, cita seu amigo Alípio que, na Itália, assessorava o responsável pelas finanças do país: ”Um senador poderosíssimo, que a muitos cativava pelos benefícios ou subjugava pelo medo, aproveitando-se de seu poder, como era seu costume, pretendeu que lhe fosse concedido algo proibido pelas leis: Alípio se opôs. Prometeram-lhe um prêmio: menosprezou-o resolutamente. Fizeram-lhe ameaças: rechaçou-as com energia incomum, maravilhando todos por não aceitar como amigo ou temer como inimigo um homem tão importante, celebrado pela vasta reputação de dispor de inúmeros meios para favorecer ou prejudicar alguém” (VI, X, 16).

Agostinho amasiou-se por longos anos. E a isso se refere abertamente: “Amarrado à doença da carne por uma atração mortífera” (VI, XII, 21) (...) “de maneira alguma eu poderia suportar uma vida de celibatário” (22) (...) “e pedi em casamento uma jovem à qual faltavam cerca de dois anos para ser núbil” (23) (...) “quando aquela com a qual eu costumava me deitar foi arrancada do meu flanco por ser um empecilho ao casamento, meu coração, que se apegara a ela, despedaçado e ferido, deixou um rastro de sangue. Ela voltou para a África prometendo a ti que não conheceria outros homens, e deixou comigo o filho que tive com ela” (VI, XV, 25).

Jostein Gaarder não foi justo em Vita Brevis – a carta de Flória Emília para Aurélio  Agostinho (São Paulo, Companhia das Letras, 1997), pois Agostinho soube cuidar de Adeodato, levou-o para Milão e fez dele personagem do diálogo A vida feliz e interlocutor em O mestre. Não poupou elogios ao filho: “Tinha apenas quinze anos e superava em inteligência muitos homens sérios e eruditos (...) Sua inteligência me dava arrepios” (IX, VI, 14).

Confissões contém ainda tratados sobre a memória, o tempo, a verdadeira felicidade. E cita a piada: “O que Deus fazia antes de criar o céu e a terra? Não respondo como alguém respondeu, esquivando com uma brincadeira a contundência do questionamento: ‘Prepara o inferno para quem investiga mistérios profundos.’ Não respondo assim. Prefiro responder: Não sei o que não sei” (XI, XII, 14).

Eis uma obra que, dezessete séculos depois, permanece atualíssima.


Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.