Palestra feita por Frei Betto, em fevereiro, no Congresso Mundial de Universidades 2014, realizado em Havana, Cuba

Havana, 9º Congresso Internacional de Educação Superior, 12 de fevereiro de 2014

O bloco socialista se desintegrou antes de completar um século. A União Soviética se esfacelou e os países que a formavam adotaram o capitalismo como sistema econômico e sinônimo de democracia. Tudo aquilo que o socialismo pretendia e, de alguma maneira, alcançara – redução da desigualdade social, garantia do pleno emprego, saúde e educação gratuitos e de qualidade, controle da inflação etc. – desapareceu para dar lugar a todas as características desumanas do neoliberalismo capitalista: a pessoa encarada, não como cidadã, e sim como consumista; o ideal de vida reduzido ao hedonismo; a exploração da força de trabalho e a apropriação privada da mais-valia; a especulação financeira; a degradação da condição humana através da prostituição, da indústria pornográfica, da criminalidade e do crescente consumo de álcool e drogas.

É nosso dever, como homens e mulheres de esquerda, nos perguntarmos quais as causas do desaparecimento do socialismo na Europa. Sabemos todos que há um amplo leque de causas, que vão da conjuntura econômica de um mundo bipolar hegemonizado pelo capitalismo às pressões bélicas em decorrência da Guerra Fria.

Entre as tantas causas destaco uma de caráter subjetivo, ideológico, que diz respeito ao nosso tema: o papel do educador na formação política dos educandos.

Devo dizer que, antes da queda do Muro de Berlim, tive a oportunidade de visitar a China e a Polônia; duas vezes a Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental; e três, a União Soviética.

O socialismo europeu cometeu o erro de supor que seriam naturalmente socialistas pessoas nascidas em uma sociedade socialista. Como se a concepção marxista e os valores altruístas fossem geneticamente transmissíveis. Esqueceu-se da afirmação de Marx de que a consciência reflete as condições materiais de existência, mas também influi e modifica essas condições. Há uma interação dialética entre sujeito e realidade na qual ele se insere.

Em primeira instância, e não em última, nascemos todos autocentrados. “O amor é um produto cultural”, teria dito Lênin. Resulta do desdobramento de nosso ego, o que se obtém através de práticas que infundam valores altruístas, gestos solidários, ideais coletivos pelos quais a vida ganha sentido e a morte deixa de ser encarada como fracasso ou derrota.

Segundo Lyotard, o que caracteriza a pós modernidade é não saber responder a questão do sentido da vida. Este o papel do educador: não apenas transmitir conhecimentos, facilitar pedagogicamente o acesso ao patrimônio cultural da nação e da humanidade, mas também suscitar no educando o espírito e a militância revolucionários, a busca do homem e da mulher novos espelhados, aqui no caso de Cuba, nos exemplos de Martí, Che Guevara e Fidel.

Ora, isso jamais será possível se não se propicia ao magistério um processo de formação permanente. É um equivoco julgar que professores de um país socialista, ainda que filiados ao partido que encabeçou a Revolução, sejam revolucionários. Nenhum de nós é totalmente invulnerável às seduções capitalistas, aos atrativos do individualismo, à tentação de acomodamento e indiferença frente ao sofrimento alheio e às carências coletivas.

Estamos todos permanentemente sujeitos às influências nocivas que satisfazem o nosso ego e tendem a nos imobilizar quando se trata de correr riscos e abrir mão de prestígio, poder e dinheiro. A corrupção é uma erva daninha inerente ao capitalismo e ao socialismo. Jamais haverá um sistema social no qual a ética se destaque como virtude inerente a todos que nele vivem e trabalham.

Se não é possível alcançar a utopia de ética na política, é preciso conquistar a ética da política. Criar uma institucionalidade política que nos impeça de “cair em tentação” quanto à falta de ética. Isso só será possível em um sistema no qual inexistam a impunidade e o desejo de corromper e aceitar corrupção. Tal objetivo não se alcança por meio de repressão e penalidades, embora sejam necessárias. O mais importante é o trabalho pedagógico, a emulação moral, tarefa na qual os professores desempenham papel preponderante, na medida em que lidam com a formação da consciência e da prática das novas gerações.

Um professor revolucionário deve ter atitudes pautadas pela construção de uma identidade humana na qual haja adequação entre essência e existência. Esse professor deve administrar sua disciplina escolar contextualizando-a na conjuntura histórica na qual se insere.

O papel número um do educador não é formar mão de obra especializada ou qualificada para o mercado de trabalho. É formar seres humanos felizes, dignos, dotados de consciência crítica, participantes ativos do desafio permanente de aprimorar o socialismo, que considero o nome político do amor. Para tanto, cabe a quem educa suscitar nos educandos apreço aos valores que estimulam o altruísmo, a solidariedade, o serviço desinteressado às causas coletivas, ainda que a fonte desses valores não seja estritamente ideológica, mas também religiosa ou espiritual.

Caminhar nesse sentido implica vencer alguns desafios da atual conjuntura. O primeiro deles é superar o avassalador processo neoliberal de desistorização da história. Sem perspectiva histórica não há consciência nem projetos políticos. Ao enunciar que “a história acabou”, o neoliberalismo quer nos incutir a convicção de que o tempo é cíclico, como para os antigos gregos, e qualquer tentativa de historicizá-lo é inútil, até mesmo porque a humanidade, como apregoam os neoliberais, já atingiu o seu mais alto patamar civilizatório, consubstanciado no sistema capitalista, capaz de comportar a única democracia possível...

Martí já havia pressentido essa questão e, portanto, insistido na educação como processo de formação da consciência histórica: “Para estudiar las posibilidades de la vida futura de los hombres, es necesario dominar el conocimiento de las realidades de su vida pasada. Del progreso humano se habla tanto que a poco más va a parecer vulgaridad hablar de él. No se puede predecir cómo progresará el hombre, sin conocer cómo ha progresado (...)” (José Martí, “Exposición de la eletricidad”, La América, Nova York, março de 1883, T. 8, p. 347).

Um segundo desafio a vencer é o mimetismo cultural, próprio da consciência colonizada, que julga o opressor modelo a ser imitado pelo oprimido, como bem denunciou Paulo Freire em suas obras. Sempre observei, nas três décadas em que retorno com frequência a Cuba, que aqui muitos se comparam aos padrões dos EUA, e não aos da América Latina. Tivessem todos os cubanos a consciência de que esta nação, comparada ao conjunto da América Latina, é mais avançada em saúde, educação, direitos sociais e igualdade de acesso aos bens essenciais à vida, com certeza seria bem menor o nível de insatisfação daqueles que adotam como padrão de desenvolvimento o consumismo estadunidense, sem levar em conta os milhares de cidadãos dos EUA excluídos de livre acesso aos bens essenciais à vida. Há hoje mais de 40 milhões de pessoas ameaçadas pela miséria e mais negros nas prisões daquele país do que escravos no século XIX!

Um terceiro desafio é, neste mundo hegemonizado pela mercantilização de todas as dimensões da vida e de todos os aspectos da natureza, cultivar a espiritualidade. “Es necesario mantener los hombres en el conocimiento de la tierra y en la perdurabilidad y trascendencia de la vida” (Martí, “Maestros ambulantes”, La América, Nova York, maio de 1884, T. 8, p. 288).

Martí antecipa Paulo Freire ao enfatizar que o educando deve ser o protagonista do processo educativo. “(...) no hay mejor sistema de educación que aquel que prepara [al] niño a aprender por si” (José Martí, La América, Nova York, novembro de 1883, T. 8, p. 421). É o que ele repetirá em La Edad de oro: “[...] los hombres deben aprenderlo por si mismos, y no creer sin preguntar, ni hablar sin entender, ni pensar como esclavos lo que les mandan pensar otros [...]” (José Martí, Un paseo por la tierra de los anamitas, T. 18, p. 459).

Paulo Freire, em sua Pedagogia do oprimido, irá acentuar que a verdadeira educação é a que conscientiza o educando sobre as contradições do mundo, sejam elas estruturais, superestruturais ou interestruturais. Essas contradições, uma vez conscientizadas, desacomodam o educando, impelindo-o a se tornar agente ou protagonista de transformação da realidade. Para alcançar esse objetivo, Freire aponta 10 sintomas do que ele qualifica de “educação bancária” e que precisam ser evitados ou erradicados: 1) o educador é que educa; os educandos, os que são educados; 2) o educador é que sabe; os educandos, os que não sabem; 3) o educador é o que pensa; os educandos, os que apreendem os pensamentos como verdades absolutas; 4) o educador é o que diz a palavra; os educandos, os que a escutam docilmente; 5) o educador é o que disciplina; os educandos, os disciplinados; 6) o educador é o que opta e prescreve sua opção; os educandos, os que seguem a prescrição; 7) o educador é que atua; os educandos, os que têm a ilusão de que atuam na atuação do educador; 8) o educador escolhe o conteúdo programático; os educandos jamais são ouvidos nesta escolha, se acomodam a ele; 9) o educador identifica a autoridade do saber com sua autoridade funcional, que opõe antagonicamente à liberdade dos educandos; estes devem adaptar-se às determinações daquele; 10) o educador, finalmente, é o sujeito do processo; os educandos, meros objetos. (Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, Rio, Paz e Terra, 1974, PP. 67-68).

A educação deve ser dialógica, conscientizadora, problematizadora, contextualizadora, de modo a superar a contradição educador-educando e tornar-se um exercício permanente de prática da liberdade. Em seu folheto Guatemala, publicado no México em 1878, Martí elogia a pedagogia da Universidade Central da Guatemala: “E os jovens se animam. Criticam o professor, o texto, o livro de consulta. Rejeitam a imposição magistral, o que também é bom. Desejam saber para crer. Aspiram à verdade por meio da experiência; maneira de tornar sólido o talento, firmes as virtudes e enérgico o caráter.” (Citado in Diego Jorge González Serra, Martí e a psicologia, São Paulo, Escrituras, 2001, p. 81).

Uma educação que se reduz a ser mera ortofonia, repetição incessante de conceitos petrificados pela voz da autoridade, destitui o educando de senso crítico e imprime nele a ideia de que a Revolução é um fato histórico do passado, e não um perene desafio à cada nova geração. Para que haja educandos revolucionários é preciso que o processo educativo seja igualmente revolucionário, o que significa transformar a escola em um laboratório no qual se estabeleça uma interconexão estratégica entre todas as disciplinas, e o ensino esteja permanentemente conectado às conjunturas nacional e internacional. O médico não é apenas aquele que sabe lidar com o órgão enfermo, mas que também conhece as causas sociais, históricas e psíquicas de produção das doenças e suscita em seu paciente o vigor de combatê-las. O administrador não se resume a cuidar bem da empresa que lhe foi confiada, mas também desperta nos funcionários o senso ético do serviço que a empresa presta ao público, impedindo desvios, corrupções e desperdícios. O técnico em computação não é apenas quem domina o funcionamento do equipamento eletrônico e procura aprimorá-lo, mas também quem compreende o papel político das redes sociais, o poder da informática nas relações entre nações, o risco de que a realidade virtual se descole sempre mais, com o perdão da redundância, da realidade real.

Sabemos todos que a Revolução Cubana se encontra em um momento crucial. Ao contrário do Período Especial, imediatamente após a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, o momento agora não é de extrema carência, é de abundância de ideias, propostas e sugestões de como a Revolução fará jus ao legado recebido de seus três grandes luminares – Martí, Fidel e Che – para adaptar-se ao século XXI, preservando e melhorando sua ética de não exploração do trabalho alheio e apropriação privada da riqueza; seus direitos sociais, como alimentação, saúde e educação a todos, sem discriminações e perda de qualidade; sua liberdade de pleno exercício e expressão do pensamento, da criatividade artística, da convicção religiosa; sua moral, de preservação por todos do que a todos pertence, erradicando a corrupção, o absenteísmo e a dilapidação do patrimônio público; seu internacionalismo, incutindo nas novas gerações o senso de solidariedade, serviço aos mais necessitados, partilha dos talentos e dos bens.

Sabemos todos que a Revolução enfrenta inimigos poderosos, como o bloqueio imposto pela Casa Branca a Cuba; a injusta prisão dos cinco heróis cubanos nos EUA; a pressão midiática neoliberal, eivada de preconceitos e ofensas; as dificuldades de obtenção de créditos e de mercado para os produtos cubanos. O principal inimigo, porém, não está lá fora. Está dentro de Cuba. E pode ser identificado com facilidade: é a educação “bancária”; é o desânimo frente aos desafios; é o individualismo que busca seu próprio proveito, sem considerar os direitos coletivos; é a falta de cuidados com os bens públicos; é a indiferença frente aos mais necessitados e envelhecidos; enfim, é o egoísmo que faz de cada um de nós um vírus capaz de corroer e debilitar o organismo social sadio. Esse inimigo interno é o mais perigoso e letal.

Felizmente é também o mais fácil de se combater quando se adotam métodos eficazes de educação libertadora, de emulação moral, de cultivo de espiritualidades que, a cada dia, despertem em cada um de nós aquilo que mais almejamos e que Martí bem resume nestas palavras: “(...) o dom do amor, que torna o gênio fecundo.” (La América, Nova York, agosto de 1883).


 Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “La mosca azul” (Ocean Press), entre outros livros.

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El papel del educador en la formación política de los educandos

Frei Betto

La Habana, 9no Congreso Internacional de Educación Superior, 12 de febrero de 2014

El bloque socialista se desintegró antes de cumplir un siglo. La Unión Soviética se desmembró, y los países que la formaban adoptaron el capitalismo como sistema económico y sinónimo de democracia. Todo lo que el socialismo pretendía y que, de alguna manera, había alcanzado –reducción de la desigualdad social, garantía del pleno empleo, salud y educación gratuitos y de calidad, control de la inflación, etc.— desapareció para dar lugar a todas las características inhumanas del neoliberalismo capitalista: la persona entendida no como ciudadana, sino como consumidora; el ideal de vida reducido al hedonismo; la explotación de la fuerza de trabajo y la apropiación privada de la plusvalía; la especulación financiera; la degradación de la condición humana merced a la prostitución, la industria pornográfica, la criminalidad y el creciente consumo de alcohol y drogas.

Es nuestro deber, en tanto hombres y mujeres de izquierda, preguntarnos por las causas de la desaparición del socialismo en Europa. Todos sabemos que hay un amplio abanico de causas, que van desde la coyuntura económica de un mundo bipolar hegemonizado por el capitalismo hasta las presiones bélicas derivadas de la Guerra Fría.

Entre esas diversas causas destaco una de carácter subjetivo, ideológico, que tiene que ver con nuestro tema: el papel del educador en la formación política de los educandos.

Debo decir que, antes de la caída del Muro de Berlín, tuve la oportunidad de visitar en una oportunidad China y Polonia; en dos, Checoslovaquia y Alemania Oriental; y en tres, la Unión Soviética.

El socialismo europeo cometió el error de suponer que las personas nacidas en una sociedad socialista serían naturalmente socialistas. Como si la concepción marxista y los valores altruistas fueran transmisibles genéticamente. Se olvidó la afirmación de Marx de que la conciencia refleja las condiciones materiales de existencia, pero también influye sobre esas condiciones y las modifica. Existe una interacción dialéctica entre el sujeto y la realidad en la que se inserta.

En primera instancia –y no en última— todos nacemos autocentrados. “El amor es un producto cultural”, dijo Lenin. Es resultado del desdoblamiento de nuestro ego, lo que se logra mediante prácticas que infunden valores altruistas, gestos solidarios, ideales colectivos gracias a los cuales la vida gana sentido y la muerte deja de ser encarada como fracaso o derrota.

Según Lyotard, lo que caracteriza a la posmodernidad es que no sabe responder a la pregunta sobre el sentido de la vida. Ese es el papel del educador: no limitarse a transmitir conocimientos, a facilitar pedagógicamente el acceso al patrimonio cultural de la nación y de la humanidad, sino también suscitar en el educando el espíritu y la militancia revolucionarios, la búsqueda del hombre y la mujer nuevos inspirados aquí, en el caso de Cuba, en los ejemplos de Martí, Che Guevara y Fidel.

Ahora bien, eso nunca será posible si no se le propicia al magisterio un proceso de formación permanente. Es un error creer que los profesores de un país socialista, aun cuando militen en el partido que encabezó la revolución, sean, en consecuencia, revolucionarios. Ninguno de nosotros es totalmente invulnerable a las seducciones capitalistas, a los atractivos del individualismo, a la tentación del acomodamiento y la indiferencia ante el sufrimiento ajeno y las carencias colectivas.

Todos estamos sujetos permanentemente a las influencias nocivas que satisfacen nuestro ego y tienden a inmovilizarnos cuando hay que correr riegos y renunciar al prestigio, el poder y el dinero. La corrupción es una mala yerba inherente al capitalismo y al socialismo. Jamás habrá un sistema social en el cual la ética constituya una virtud inherente a todos los que viven y trabajan en él.

Si no es posible alcanzar la utopía de la ética en la política, es preciso conquistar la ética de la política. Crear una institucionalidad política que nos impida “caer en tentación” en cuanto a la falta de ética. Eso solo será posible en un sistema en el cual no exista la impunidad, y el deseo de ser corruptor o corrompido no resulte practicable. Ese objetivo no se alcanza mediante la represión y los castigos, aun cuando sean necesarios. Lo más importante es el trabajo pedagógico, la emulación moral, tarea en la cual los profesores desempeñan un papel preponderante, dado que tienen que ver con la formación de la conciencia y la práctica de las nuevas generaciones.

Un profesor revolucionario debe tener actitudes pautadas por la construcción de una identidad humana en la cual exista una adecuación entre esencia y existencia. Ese profesor debe administrar su disciplina escolar contextualizándola a la coyuntura histórica en la cual se inserta.

El primer deber del educador no es formar mano de obra especializada o calificada para el mercado de trabajo. Es formar seres humanos felices, dignos, dotados de conciencia crítica, participantes activos en el desafío permanente de perfeccionar el socialismo, que considero que es el nombre político del amor. Para eso, le cabe a la educación despertar en los educandos el aprecio por los valores que estimulan el altruismo, la solidaridad, el servicio desinteresado a las causas colectivas, aunque la fuente de esos valores no sea exclusivamente ideológica, sino también religiosa o espiritual.

Avanzar en ese sentido implica vencer algunos desafíos de la actual coyuntura. El primero es superar el avasallador proceso neoliberal de deshistorización de la historia. Sin perspectiva histórica no hay ni conciencia ni proyectos políticos. Al anunciar “el fin de la historia”, el neoliberalismo nos quiere convencer de que el tiempo es cíclico, como pensaban los antiguos griegos, y que cualquier intento de historizar el tiempo es inútil, incluso porque, como pregonan los neoliberales, la humanidad ya alcanzó su nivel civilizatorio más alto, consustanciado en el sistema capitalista, capaz de contener en sí la única democracia posible…

Martí ya presintió esa cuestión y, por tanto, insistió en la educación como proceso de formación de la conciencia histórica: “Para estudiar las posibilidades de la vida futura de los hombres, es necesario dominar el conocimiento de las realidades de su vida pasada. Del progreso humano se habla tanto, que a poco más va a parecer vulgaridad hablar de él. No se puede predecir cómo progresará el hombre sin conocer cómo ha progresado…” (José Martí: Obras completas, “Exposición de electricidad”, La América, Nueva York, marzo de 1883, t. 8, p. 347).

Un segundo desafío a vencer es el mimetismo cultural, propio de la conciencia colonizada, que considera que el opresor es un modelo a ser imitado por el oprimido, como bien denunció Paulo Freire en su obra. Siempre he observado, en estas tres décadas en que vengo con frecuencia a Cuba, que aquí muchos se comparan con los patrones de los Estados Unidos y no con los de la América Latina. Si todos los cubanos estuvieran conscientes de que esta nación, comparada con el conjunto de la América Latina, es más avanzada en términos de salud, educación, derechos sociales e igualdad de acceso a los bienes esenciales de la vida, con certeza sería mucho menor el nivel de insatisfacción de los cubanos que asumen como patrón de desarrollo el consumismo estadounidense, sin tener en cuenta a los millares de ciudadanos de los Estados Unidos excluidos del libre acceso a los bienes esenciales para la vida. Hoy hay más de cuarenta millones de personas amenazadas por la miseria en aquel país, y más negros en sus prisiones que esclavos en el siglo XIX.

Un tercer desafío, en este mundo hegemonizado por la mercantilización de todas las dimensiones de la vida y todos los aspectos de la naturaleza, es el de cultivar la espiritualidad. “Es necesario mantener a los hombres en el conocimiento de la tierra, y en el de la perdurabilidad y trascendencia de la vida” (José Martí, ibid., “Maestros ambulantes”, La América, Nueva York, mayo de 1884, t. 8., p. 288).

Martí se anticipó a Paulo Freire al subrayar que el educando debe ser el protagonista del proceso educativo: “… no hay mejor sistema de educación que aquel que prepara [al] niño a aprender por sí” (José Martí: ibid., La América, Nueva York, noviembre de 1883, t. 8, p. 421). Es lo que repetiría en La edad de oro: “[...] los hombres deben aprenderlo todo por sí mismos, y no creer sin preguntar, ni hablar sin entender, ni pensar como esclavos lo que les mandan pensar otros [...]” (José Martí: ibid., “Un paseo por la tierra de los anamitas”, t. 18, p. 459).

En su Pedagogía del oprimido, Paulo Freire insistiría en que la verdadera educación es la que concientiza al educando sobre las contradicciones del mundo humano, sean estructurales, superestructurales o interestructurales. Esas contradicciones, una vez concientizadas, inquietan al educando y lo impulsan a convertirse en agente o protagonista de la transformación de la realidad. Para alcanzar ese objetivo, Freire apunta diez síntomas de lo que califica como “educación bancaria”, y que deben ser evitados o erradicados: 1) el educador es quien educa; los educados, quienes son educados; 2) el educador es quien sabe; los educandos, quienes no saben; 3) el educador es quien piensa; los educandos, quienes son pensados; 4) el educador es quien dice la palabra; los educandos, quienes la escuchan dócilmente; 5) el educador es quien disciplina; los educandos, los disciplinados; 6) el educador es quien opta y prescribe su opción; los educandos, quienes siguen la prescripción; 7) el educador es quien actúa; los educandos, quienes tienen la ilusión de que actúan en la actuación del educador; 8) el educador escoge el contenido del programa; los educandos, que no tienen voz en esa selección, se acomodan a ellos; 9) el educador equipara la autoridad del saber con su autoridad funcional, que se opone antagónicamente a la libertad de los educandos; estos deben adaptarse a sus determinaciones; 10) el educador, por último, es el sujeto del proceso; los educandos, meros objetos (Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, Río de Janeiro, Paz e Terra, 1974, pp. 67-68.)

La educación debe ser dialógica, concientizadora, problematizadora, contextualizadora, de modo que supere la contradicción educador-educando y se convierta en un ejercicio permanente de práctica de la libertad. En su folleto Guatemala, publicado en México en 1878, Martí elogia la pedagogía de la Universidad Central de Guatemala: “… los jóvenes se animan. Discuten al maestro, al libro de consulta. Tienen cierto espíritu volteriano que hace bien. Rechazan la magistral imposición, lo que es bueno. Anhelan saber para creer. Anhelan la verdad por la experiencia; manera de hacer sólidos los talentos, firmes las virtudes, enérgicos los caracteres”. (Citado en Diego Jorge González Serra: Martí e a psicología, Sao Paulo, Escrituras, 2001, p. 81).

Una educación que se reduce a mera ortofonía, a la repetición incesante de conceptos petrificados en voz de la autoridad, despoja al educando de sentido crítico y lo imbuye de la idea de que la Revolución es un hecho histórico del pasado y no un desafío perenne de cada nueva generación. Para que haya educandos revolucionarios es necesario que el proceso educativo sea igualmente revolucionario, lo que significa transformar la escuela en un laboratorio en el cual se establezca una interconexión estratégica entre todas las disciplinas y la enseñanza esté permanentemente conectada a las coyunturas nacional a internacional. El médico no es solo un técnico que sabe tratar el órgano enfermo, sino que es quien conoce también las causas sociales, históricas y psíquicas que producen las enfermedades y promueve en su paciente el vigor para combatirlas. El administrador no se limita a cuidar bien de la empresa que le fue confiada, sino que, además, despierta en los funcionarios el sentido ético del servicio que la empresa le presta al público, e impide desvíos, corrupciones y derroches. El técnico en computación no es solo quien domina el funcionamiento del equipamiento electrónico y trata de perfeccionarlo, sino que es también quien comprende el papel político de las redes sociales, el poder de la informática en las relaciones entre naciones, el riesgo de que la realidad virtual se aleje cada vez más –con perdón de la redundancia— de la realidad real.

Todos sabemos que la Revolución cubana atraviesa un momento crucial. A diferencia del Período Especial, iniciado inmediatamente después de la caída del Muro de Berlín y la desaparición de la Unión Soviética, el momento ahora no es de extrema carencia: es de abundancia de ideas, propuestas y sugerencias acerca de cómo le hará justicia la Revolución al legado que recibiera de sus tres grandes luminarias –Martí, Fidel y el Che— para adaptarse al siglo XXI preservando y mejorando su ética de no explotación del trabajo ajeno ni apropiación privada de la riqueza; sus derechos sociales como la alimentación, la salud y la educación para todos sin discriminaciones ni pérdida de calidad; su libertad de pleno ejercicio y expresión del pensamiento, de la creatividad artística, de las convicciones religiosas; su moral de preservación por todos de lo que a todos pertenece, erradicando la corrupción, el ausentismo y la dilapidación del patrimonio público; su internacionalismo, al inspirarle a las nuevas generaciones el sentido de solidaridad, de servicio a los más necesitados, de compartición de los talentos y los bienes.

Todos sabemos que la Revolución enfrenta enemigos poderosos, como el bloqueo impuesto por la Casa Blanca a Cuba; la injusta prisión de los cinco héroes cubanos en los Estados Unidos; la presión mediática neoliberal, plena de prejuicios y ofensas; las dificultades para la obtención de créditos y mercados para los productos cubanos. El principal enemigo, sin embargo, no está afuera. Está dentro de Cuba. Y puede identificársele con facilidad: es la educación “bancaria”; es el desánimo frente a los desafíos; es el individualismo que busca su propio provecho sin considerar los derechos colectivos; es la falta de cuidado con los bienes públicos; es la indiferencia frente a los más necesitados y los más viejos; es, en fin, el egoísmo que hace de cada uno de nosotros un virus capaz de corroer y debilitar el organismo social saludable. Ese enemigo interno es el más peligroso y letal. Afortunadamente, es también el más fácil de combatir cuando se adoptan métodos eficaces de educación liberadora, de emulación moral, de cultivo de la espiritualidad, que despierten cada día, en cada uno de nosotros, lo que más ansiamos y que Martí tan bien resume en estas palabras: “(…) el don de amor, que torna al genio fecundo” (La América, Nueva York, agosto de 1883).


 Frei Betto es escritor y asesor de movimientos sociales. Es el autor, entre otros libros, de La mosca azul (Ocean Sur) y de Fidel y la religión (Consejo de Estado).

Traducción: Esther Pérez, educadora popular
Centro Martin Luther King