Frei Betto: entrevista a “O GLOBO” sobre seu novo livro, “POR UMA EDUCAÇÃO CRÍTICA E PARTICIPATIVA” (Anfiteatro/Rocco).

Publicada no jornal carioca na sexta, 12 de outubro de 2018.

1. O senhor tem grande experiência em educação, tanto como teórico como junto a projetos pedagógicos populares, e em "Por uma educação crítica e participativa" o senhor aborda desafios contemporâneos da área. O senhor acredita que, além das deficiências educacionais históricas do Brasil, temos à frente problemas nunca antes enfrentados?

Frei Betto: Temos muitos problemas ainda a serem enfrentados, porque nosso sistema educacional é arcaico, burocrático, e agora agravado por essa proposta deseducativa de "Escola Sem Partido". Uma das maiores contradições brasileiras é o investimento em cursos superiores superarem largamente o que se faz na pré-escola e no ensino fundamental. Insistimos em plantar a árvore pela copa, e não pela raiz... Os professores são mal pagos, a escola pública está sucateada e, para coroar o bolo com pimenta ardida, o governo ainda congela por 20 anos o investimento em educação. Isso explica o triste fato de, em 2017, entre 4 milhões de redações no Enem apenas 53 merecerem a nota máxima!

2. As novas tecnologias, hoje ferramentas fundamentais para a educação (inclusive a EAD), também trazem riscos de desinformação. Isso se manifestou nestas eleições, em que as chamadas "fake news" superam, em muito, o alcance dos veículos tradicionais. O senhor aborda o tema no livro, abrangendo também a força da mídia televisiva no livro. Como o senhor acredita que a tecnologia digital pode ser usada a serviço da educação?

Frei Betto: Primeiro é preciso equipar as nossas escolas de ferramentas digitais. E ensinar a lidar com elas. Nem sequer a maioria das escolas deu o passo da tradicional interpretação de textos (era literária) para o olhar crítico frente à TV, ao cinema e aos múltiplos recursos da internet (era imagética). O resultado é milhões de pessoas sujeitas à descostura das mensagens digitais, escravizadas pelas algemas virtuais do smartphone, jogando fora um tempo precioso que poderia ser investido no diálogo ou na leitura. E pensam que estão navegando quando, de fato, estão naufragando...

3. Um dos assuntos que o senhor aborda no livro é a questão da Escola sem Partido, que foi um dos temas de campanha de muitos candidatos conservadores, com o apoio de uma grande massa de eleitores. Para o senhor, esta pode ser uma das maiores ameaças à educação e a autonomia dos professores no país? Casos recentes de professores agredidos em sala de aula ou do livro "Meninos sem pátria", que foi proibido no Santo Agostinho, já demonstram o impacto que este tipo pensamento já causou?

Frei Betto: Na educação não existe neutralidade. Ou se formam pensamento crítico, critérios de discernimento e seleção de valores preferenciais ou o aluno fica sujeito ao que "aprende" das redes digitais e da sedução publicitária. Em vez de cidadão protagonista passa a ser mero receptáculo consumista. Com o risco de ficar refém dos quatro "valores" do mercado: beleza, riqueza, fama e poder. Isso explica por que há uma farmácia em cada esquina, e não uma livraria, um cineclube ou um espaço de criação artística.

4. O senhor destaca no livro a importância de Paulo Freire, apontado como a "raiz da história do poder popular brasileiro". Apesar de ser reconhecido mundialmente como um dos maiores educadores de todos os tempos, Paulo Freire passou a ser atacado no país por grupos que vêem seu método como uma forma de "doutrinação ideológica". Corremos o risco de ver as escolas pararem de formar cidadãos ao se tornarem apenas repetidoras de conteúdo?

Frei Betto: Ingênuo quem pensa que a publicidade, o entretenimento, a versão elitista da história não são doutrinação ideológica. O que os que desprezam a obra de Paulo Freire - e a maioria sem jamais ter lido um livro dele - são os que insistem em encarar o mundo pela ótica ideológica dos dominadores, e não dos dominados. Assim, são "educados" na convicção de que negros são intelectualmente inferiores aos brancos; índios, seres primitivos que atrapalham o progresso; mulheres, potenciais objetos eróticos; e homossexuais, meros pervertidos. Não se constrói uma nação com tanta segregação, preconceito e discriminação.

5. O senhor relata muitas experiências bem-sucedidas em educação popular, desde as ações de alfabetização em fábricas, junto ao MST ou em conjunto com as CEBs etc. O senhor acredita que ao longo dos anos houve um afastamento das políticas educacionais junto às bases populares e hoje o país paga esta conta?

Frei Betto: Paga, e caro, pois nas avaliações internacionais o Brasil figura sempre na rabeira comparado a outros países, inclusive da América Latina. No governo Lula, à sombra do Fome Zero, implantamos um amplo sistema de educação popular - cuja história está ainda por ser pesquisada e contata - conhecida por Recid, Rede de Educação Cidadã. Ela abrigava 800 educadores populares profissionalizados e mais 1.000 voluntários, destinados a favorecer a cidadania dos beneficiários das políticas sociais. Isso já não existe, e o resultado é a dependência dos favorecidos aos subsídios do governo, e não pessoas empreendedoras em busca de sua emancipação econômica e social.

6. Outro tema muito debatido atualmente que o senhor aborda no livro é a chamada "ideologia de gênero". Hoje, defensores do Escola sem Partido tratam qualquer conteúdo que alerte sobre a homofobia e outros preconceitos como "ameaças à família". Como propor uma educação inclusiva e sem medo de assuntos tabus neste contexto?

Frei Betto: Nossas escolas nem sequer fazem educação sexual, tamanho o tabu. Quando muito, dão aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis. Aulas nas quais não se ouvem duas palavras fundamentais: afeto e amor. Resultado: preconceito, gravidez precoce, sexualidade desprovida de sentimentos, promiscuidade etc. Negar a diversidade de gênero equivale a retornar à cosmologia de Ptolomeu e proclamar que é o sol que gira em torno da Terra... Como diria Galileu Galilei, apesar de tudo, a diversidade existe.

7. O senhor também defende uma educação em direitos humanos, que possa ajudar a assegurar os direitos fundamentais que todas as pessoas possuem. Este é outro ponto que vem sendo questionado pelos grupos conservadores, que constantemente relacionam os direitos humanos a "privilégios" ou a "defesa de bandidos". Como fazer com que a escola volte a defender esta bandeira, que deve estar na base de qualquer sociedade justa e igualitária?

Frei Betto: Uma escola que não trata de direitos humanos, não faz da ética um tema transversal, não educa politicamente (não confundir com partidariamente), está fadada a deformar seres humanos e não a formar. Esse tipo de "educação" é que gera gente como os que, semana passada, entraram na UnB, em Brasília, e rasgaram livros de direitos humanos. Nesse ritmo, como predisse Darcy Ribeiro, vamos ter um país com mais e mais cadeias, que só poderiam ser reduzidas com mais e mais escolas. Não me estranha que, em plena campanha eleitoral, há quem proponha dar a cada cidadão uma arma, e não um lápis ou uma caneta...

8. O livro traz reflexões a partir do quadro educacional do Brasil, que no último relatório da Unesco estava na 88ª posição entre 127 países, ou em penúltimo lugar na lista de 36 nações pesquisadas pela OCDE. De que forma podemos reverter este quadro, num cenário de congelamento de recursos e de redução de investimento em áreas correlatas à educação, como cultura, ciência e tecnologia? Como podemos nos aproximar das nações de ponta se não conseguimos resolver os nossos problemas crônicos na educação?

Frei Betto: Não podemos. A menos os que ousemos promover uma revolução na educação. Perguntando, por exemplo, como o Japão, que é do tamanho do Maranhão, pobre e destroçado pela guerra na década de 1940, em poucos anos se tornou uma potência mundial. Sem educação não há solução. E todos nós somos frutos da educação que recebemos ou da deseducação que nos foi imposta.

9. Em muitos sentidos, inclusive espirituais, o livro defende que "saber educar é saber amar". Em um momento em que uma polarização política acirra os ânimos, provocando casos de agressões e até homicídios, qual o papel da educação para eliminar a cultura do ódio que se mostra cada dia mais forte?

Frei Betto: O ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra. De que vale uma escola ou uma educação que ignora os temas fundamentais da vida, como amor, solidariedade, altruísmo, perda, fracasso, doença e morte?