Escritor e teólogo relembra 33 anos de diálogos com líderes políticos e busca novo olhar sobre o cristianismo

Jornal O GLOBO
POR BOLÍVAR TORRES
01/08/2015

Em 33 anos de viagens a países socialistas, Frei Betto intermediou relações entre os políticos e as religiões

RIO — Buscar conexões entre o cristianismo e o marxismo é uma constante na trajetória de Frei Betto. Há décadas, o teólogo e escritor mineiro viaja pelos países socialistas intermediando as tensas relações entre Estado e religiões.
Espécie de diário de viagem, “Paraíso perdido — viagens ao mundo socialista” (Rocco) descreve os bastidores desse longo trabalho, em que Frei Betto dialogou com líderes católicos e políticos, como Ernesto Cardenal, Fidel Castro ou Lech Walesa. Publicado pela primeira vez em 1993, o livro volta agora às livrarias em uma edição revisada e ampliada, que abarca 33 anos de reflexão sobre os desafios e as contradições do socialismo. O lançamento no Rio está previsto para a próxima segunda-feira, às 18h, no Esch Café Leblon (Rua Dias Ferreira, 78). No mesmo evento, será lançado outro livro inédito de Frei Betto, “Um Deus muito humano” (Fontanar), que propõe um novo olhar sobre Jesus.

— Ao longo de meu trabalho em países socialistas, descrito em “Paraíso perdido", sofri a dupla desconfiança: católicos que me julgavam agente do Partido Comunista, e comunistas que me viam como agente do imperialismo vaticano... — lembra Betto, em entrevista por e-mail. — Felizmente bispos e dirigentes políticos, meus anfitriões, me demonstraram confiança. O diálogo é sempre a melhor ponte para comprovar que diferenças não são necessariamente divergências, e entre pessoas de convicções distintas pode haver convergências.

A jornada se inicia com uma conversa com Ernesto Cardenal, em 1979, quando o poeta e (então) revolucionário sandinista se escondia na Costa Rica. Nos trinta anos seguintes, Betto percorreu países socialistas como Cuba, China, Tchecoslováquia, Lituânia e Polônia. Após a queda do muro de Berlim, em 1989, o autor restringiu-se a Cuba, país no qual encontrou ótimo diálogo com as lideranças locais, especialmente com seu amigo Fidel Castro.

— Hoje, em Cuba, são excelentes as relações entre Igrejas e religiões em geral e a Revolução — avalia o autor, lembrando que sua entrevista com Fidel em 1985, publicada no livro “Fidel e a religião” (a ser relançado pela Companhia das Letras, com introdução atualizadora), teve papel importante para “erradicar o medo dos cristãos e o preconceito dos comunistas”.

Para o escritor, recuperar as viagens pelas entranhas da esquerda é uma maneira de compreender os impasses de hoje. O marxismo, diz ele, é um método de análise da realidade, “mais do que nunca útil para se compreender a atual crise do capitalismo”. 

— Revisitar o socialismo é importante para encontrarmos uma saída ao capitalismo que só agrava a desigualdade mundial, como analisa (o economista francês Thomas) Piketty — afirma.

O livro, porém, também faz um balanço dos erros da esquerda no período.

— O socialismo cometeu o erro de, ao socializar os bens materiais, privatizar os bens simbólicos. Todos tinham acesso a uma vida digna, mas só a cúpula dirigente desfrutava o direito de sonhar com “outros mundos possíveis”. E um valor profundamente enraizado na subjetividade humana, a religião, foi descartado, condenado e humilhado. O capitalismo faz o contrário: privatiza os bens materiais e socializa os simbólicos. Todos têm direito de sonhar em voz alta, mas não de alcançar o mínimo necessário à vida digna.

Ao retratar o colapso soviético, Frei Betto reflete sobre o abismo que se formou entre os entusiastas da Teologia da Libertação, que “falavam como revolucionários”, e os marxistas que tentavam se adaptar a uma nova linguagem, mais “digerível por aqueles que detinham a hegemonia do neoliberalismo”. Neste sentido, qual seria o lugar da Teologia da Libertação depois que o capitalismo passou a dominar o mundo?

— A esquerda acadêmica, teórica, sem vínculos com os movimentos populares, desapareceu após a queda do muro de Berlim — responde. — Restaram os que mantêm contatos com os mais pobres, como é o caso dos adeptos da Teologia da Libertação, e militantes de outros movimentos, como o indígena. Mas assim como a fé não pode pretender transformar-se em ideologia, a ideologia não deve ser encarada como religião. Essa distinção ajuda, hoje, a evitar, ao menos entre católicos e comunistas, a confessionalização da política, como querer submetê-la aos preceitos da Igreja ou ao caráter ateu do partido. Infelizmente os partidos comunistas tardiamente se deram conta de que Estado e partido devem ser laicos, como hoje ocorre em Cuba.

Com a esquerda cooptada pelo liberalismo, diz Frei Betto, estaria cada vez mais difícil encontrar líderes políticos que busquem novos caminhos:

— Como previu Robert Michels em 1911, a esquerda no poder se deixou seduzir e trocou princípios por interesses. Hoje, no bojo da crise europeia, onde está a está a alternativa de esquerda? O “socialista” Hollande? E no Brasil, a política econômica do PT monitorada por Joaquim Levy?

O escritor vem acompanhando de perto a recente aproximação de Cuba com os Estados Unidos, que ele descreve como “o choque entre o tsunami consumista e a austeridade comunista”.

— Espero que Cuba não se transforme em uma mini-China, nem que seu futuro seja o presente de Honduras ou da Guatemala...

Já com “Um Deus muito humano”, que também será lançado segunda-feira, Frei Betto chega ao seu 60º título, sem contar as coautorias. Uma produção maciça que requer disciplina: o autor reserva 120 dias do ano só para escrever. São dias sagrados, nos quais se isola, desliga o celular e mergulha nos textos. No novo livro inédito, ele busca entender as diferenças entre o Jesus da fé e o Jesus da História — questão já trabalhada em “Um homem chamado Jesus” (Rocco), onde descreve os quatro evangelhos em forma de romance.

— Todo ponto de vista é a partir de um ponto. O Jesus dos cristãos fundamentalistas e homofóbicos não é o meu — explica.

— O desafio não é ter fé em Jesus, é ter a fé de Jesus.

Para o profeta, diz ele, o amor não seria apenas um sentimento, mas sobretudo um ato de veracidade e justiça.

— Exemplos são o bom samaritano, que mudou a sua rota em função do homem caído na estrada, e o pai do filho pródigo, que acolhe o filho antes deste se desculpar. E o papa Francisco, na encíclica “Louvado Sejas”. enfatiza a dimensão social e política do amor.