O Vietnã é, hoje, exemplo para o mundo de como enfrentar a pandemia.
06/05/2020

Com quase 96 milhões de habitantes e ocupando área pouco maior que a de Goiás, até 30 de abril não registrara uma única morte por Covid-19 entre os 270 infectados, dos quais 220 já tiveram alta hospitalar.

O isolamento social findou a 22 de abril, embora sejam mantidas medidas restritivas para bares, clubes, spas, teatros, centros esportivos etc. Estão proibidas reuniões com mais de 20 pessoas, e restaurantes e lanchonetes devem obedecer às diretrizes das autoridades locais.

O país, que faz fronteira com a China, já havia adquirido experiência de como lidar com outras modalidades de coronavírus, como a SARS (2002) e a MERS (2012). 

As cidades foram divididas em “alto risco”, “em risco” e “baixo risco”. Todos os cidadãos são obrigados ao uso de máscara e higiene rigorosa. Logo no início da pandemia, o Vietnã importou 200 mil kits de teste rápido da Coreia do Sul.

O governo ordenou que o Ministério da Saúde supervisionasse e detectasse precocemente casos infectados, monitorasse fronteiras, aeroportos e portos, principalmente de passageiros vindos de áreas afetadas.

Cessou a emissão de vistos para turistas em 30 de janeiro. Os serviços de trem entre Vietnã e China foram suspensos, exceto para trens de carga. No interior do país, passageiros de transporte público devem preencher formulários de declaração de saúde. Isso inclui ônibus de longo percurso, trens, barcos turísticos e voos domésticos.

Em 1º de abril, foram adotadas regras estritas de distanciamento social por 15 dias. As medidas incluíram isolamento e proibição de sair de casa, exceto para adquirir alimentos e medicamentos, desde que mantida distância de dois metros entre uma pessoa e outra. 

O país parou de exportar arroz a partir de 24 de março, para garantir a segurança alimentar da população. E lançou um aplicativo móvel que permite que todos os vietnamitas declarem seu estado de saúde. 

Os kits de teste fabricados pelo Vietnã foram aprovados pelos padrões europeus e receberam permissão para serem vendidos no Espaço Econômico Europeu, incluindo o Reino Unido. Embora seja um país pobre, doou US$ 100 mil em máscaras e equipamentos médicos ao Japão e, aos EUA, 200 mil máscaras e 450 mil roupas de proteção para profissionais de saúde. E cinco países europeus receberam 550 mil máscaras em apoio contra a pandemia.

Para não onerar a população, o governo cortou em 10%, por três meses, as contas de energia elétrica para empresas e residências. Máscaras e desinfetantes para as mãos foram adicionados a uma lista de produtos essenciais do programa de estabilização de preços, reduzidos de 5 a 10% em seu valor de mercado. Foi aprovado um plano para adiar a cobrança de US $ 7,6 bilhões em impostos e aluguel de terras para ajudar as empresas.

O Ministério das Finanças isentou de impostos, até o fim da pandemia, uma lista de suprimentos médicos, incluindo máscaras, desinfetantes para as mãos, filtros e equipamentos de proteção individual.

Agora, o governo estuda um pacote de emergência de US$ 2,73 bilhões para as pessoas e empresas afetadas pela Covid-19. E o primeiro-ministro propôs que o pacote de estímulo fiscal para revitalizar a economia passe de US$ 1,27 bilhão para US$ 6,36 bilhões.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) decidiu, em 27 de fevereiro, remover o Vietnã da lista de destinos vulneráveis ​​à transmissão comunitária do Covid-19, citando ações abrangentes do país contra a epidemia. Uma delegação do CDC viajou, em março, para o Vietnã, a fim de aprimorar a cooperação médica com os EUA. E decidiu abrir um escritório regional do CDC no país asiático. 

O Brasil não parece disposto a aprender a lição do Vietnã. Mas não resta dúvida de que aprenderá com a atual pandemia, ainda que ao trágico preço de inúmeras mortes. E, com certeza, frente ao próximo vírus agirá com menos descaso e mais seriedade.

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros.

Topo