Aprendi no Cristianismo, querido George Floyd, que o sangue derramado pelos mártires rega a terra e produz frutos em abundância.
11/06/2020

Daqui do Brasil, no sul do mundo, onde ocorre um genocídio por descaso do governo frente à pandemia de Covid-19, agradeço a Deus o dom de sua vida.  Seu sacrifício não foi em vão.

Como declarou Gianna, sua filha de 6 anos, “meu pai mudou o mundo”. Vergado, você se levantou; humilhado, se engrandeceu; assassinado, vive para sempre na memória de todos nós, indignados, que gritam “basta” ao racismo.

Antes de você, milhões de mulheres e homens negros foram escravizados, violentados, colonizados e segregados, considerados seres desprezíveis, inferiores, abjetos. Nem o sangue de Zumbi dos Palmares e de Martin Luther King, cruelmente assassinados como você, foi suficiente para calar a boca dos racistas, reduzir a extrema violência da polícia usamericana e convencer famílias, escolas e governos a adotarem pedagogias eficazes contra o preconceito e a discriminação.

Agora, George, sua dor traz coragem. As ruas do mundo são inundadas por protestos que nos induzem a ser intolerantes com os intolerantes. Clamar em público por direitos e respeito é mais importante do que manter o isolamento social para preservar vidas. Bem disse Jesus, “quem quiser preservar a sua vida, haverá de perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor, haverá de encontrá-la” (Mateus 16,25).

Até nos parlamentos, George, os políticos se ajoelham como sinal de protesto e guardam 8’56 minutos de silêncio em reverência à sua memória. Queira Deus que nenhum outro joelho venha a se dobrar sobre o pescoço de um negro, indígena, refugiado ou excluído.

Grato, George, porque seu sacrifício obriga governos a investirem menos no aparato policial e mais em políticas sociais. Agora academias de polícia começam a rever seus currículos para introduzir aulas intensivas de ética, de direitos humanos, de abordagem respeitosa dos suspeitos.

Você não escolheu ser pobre e fazer bicos para sobreviver. Ninguém escolhe. Você foi empobrecido por esse sistema que transforma direitos universais, como saúde e educação, em mercadorias ao alcance apenas de quem pode pagar. Os demais ficam sujeitos à vida precária. Muitos, sem estudos, acabam nas prisões; ou na falta de acesso a serviços de saúde, são precocemente condenados ao cemitério, como ocorre agora na pandemia.

Sua filha tem razão. Sua morte poderá mudar o mundo. Mas não tanto quanto gostaríamos. Continuarão a existir supremacistas brancos, racistas arraigados, e até negros que fazem apologia da escravidão e odeiam os movimentos negros, qualificados de “escória maldita” por Sérgio Camargo, indigno presidente da Fundação Palmares, principal instituição brasileira de preservação da negritude.

Agora, George, graças a você, essa gente sabe que, como canta Chico Buarque, “por favor, deixe em paz meu coração / que ele é um pote até aqui de mágoa / e qualquer desatenção / faça não / pode ser a gota d’água”.

*Frei Betto é frade dominicano, jornalista e escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre mais de 68 livros. Ele acumula décadas de trabalho social, procurando genuinamente contribuir para melhorar a vida do próximo.

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