João Paulo Cunha
30/10/2020

Frei Betto está de quarentena. Ele faz parte do grupo de risco. Não pelos 76 anos bem vividos. Tem uma saúde íntegra, de corpo e alma, fruto de seus cuidados e método que aprendeu com exercícios dos místicos. O risco que corre é em função de amar demais.

O amor salva, mas também cobra seu quinhão de necessidade de zelo em razão da sensibilidade à flor da pele, da empatia com as dores dos irmãos (inclusive o irmão sol, a irmã lua e a Mãe-Terra) e da missão irrevogável de trabalhar para combater as injustiças e melhorar o mundo.

O novo livro de Frei Betto, Diário de quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos, é um registro desse momento único na vida da humanidade, do planeta e do nosso combalido tempo, que ele nomeia de “capitaloceno”, com sua incitação inumana ao consumo.

Com ele, o escritor se aproxima da incrível marca dos 70 títulos (sem contar as obras em colaboração), numa trajetória literária que reúne contos, cartas, romances, reportagens, entrevistas, ensaios, cartilhas e orações. Mística e política; ficção e memorialismo; invenção e jornalismo.

O Diário, de certa maneira, é uma síntese dessas formas de expressão experimentadas por Frei Betto ao longo dos anos e de suas dezenas de livros. Cronologicamente esticado entre 18 de março e 16 de junho de 2020, como um varal sobre os dias da pandemia, cada entrada oferece ao leitor uma expressão singular, do registro estrito ao pequeno conto, do lirismo à evocação mística, da tentativa de futurologia desencantada à retomada da memória.

Há um pouco de tudo nas páginas do diário, da reflexão filosófica à análise política, dos números relevantes cuidadosamente apresentados (algo cada vez mais em baixa no campo das notícias falsas) à descoberta de vínculos espirituais das coisas chãs, da visada sobre a sociedade ao testemunho sobre as intermitências do coração.

É o conjunto dessas intenções com a variedade das formas de apresentação que dá uma feição peculiar e vital ao livro de Frei Betto. Diverso como a vida.

O autor estreou, há quase 50 anos, com um livro de cartas escritas durante seu encarceramento na ditadura militar. Cartas da prisão – 1969-1973 não foi pensado para publicação. É um documento pessoal e político de denúncia, mas que também impressionou pela fatura literária. Foi traduzido em muitos países e anunciou, profeticamente, o escritor por trás da experiência humana.

Frei Betto voltaria a livros igualmente inspirados pelos desvãos da violenta história brasileira contemporânea, com Das catacumbas, Batismo de sangue, Diário de Fernando e o romance O dia de Ângelo.

Diário da quarentena segue essa linhagem, digamos realista, mas com algumas diferenças significativas. Se antes, como revela Betto, a tranca do cárcere estava do lado de fora, com a pandemia é o próprio encarcerado que cuida da chave. Além disso, o autor reconhece os privilégios de hoje – poder viver retirado e trabalhar de forma independente – em contraponto à violência das prisões da ditadura militar, um compósito de desrespeito aos direitos humanos, exclusão e censura.

Em seu novo livro, a pandemia parece herdar, na incompetência de seu combate por parte do governo federal, alguns indicadores da injustiça social que estão na base dos dois momentos.

Todos nós, que vivemos o correr da pandemia, sabemos que nem só de coronavírus e suas consequências se recheiam os dias. Frei Betto segue dessa forma um método mais próximo da realidade da vida das pessoas.

Em alguns momentos, fala diretamente da doença, do número de casos e mortes, da dor dos doentes, do medo do contágio, da angústia frente ao futuro e da perda das pessoas amadas. Em outros, retoma lembranças evocadas pela situação, como os bastidores da agonia do presidente Tancredo Neves, os albores da militância política, a experiência de uma viagem à União Soviética e a visita a um campo de concentração. Declara, em parceria com o Criador, seu amor a Chico Buarque.

Evocações da religião, da ciência e da filosofia também alimentam outros fragmentos, que convocam o testemunho de místicos, as descobertas de pesquisadores das ciências da natureza e da vida, e o pensamento de filósofos como Kant, Marx e Tocqueville.

O autor, que aconselha a todos manter seu próprio diário, encontra tempo para falar do desafio de escrever como arte e como terapia. Traz passagens das escrituras e exemplos de santos e religiosos de várias crenças. Permeia suas dúvidas com as dúvidas de todos nesse momento: sairemos melhores da crise? Como gosta de dizer, prefere deixar o pessimismo para os dias melhores.

Um aspecto particularmente tocante do livro está nos dias reservados ao cuidado com a mística. Frei Betto sempre diz que gosta de rezar e escrever.

Em alguns momentos de sua obra e de suas orações, os dois caminhos parecem se juntar na mesma via, a um só tempo contemplativa e ativa. São passagens que parecem sair da materialidade do mundo para encontrar outra constituição do real, preenchida de mistério e silêncio: “Bendito os que têm fome de si e mergulham fundo no âmago do ser, arrancam dissabores do paladar medíocre, farto das migalhas caídas da mesa de Narciso”.

Há ainda uma característica sempre presente nos escritos de Frei Betto que aparece mais uma vez nesse diário de circunstância: a clareza. Para quem escreve profissionalmente para diferentes tipos de leitores, o maior desafio é ser entendido por todos.

O autor parece comungar de uma crença iluminista no poder das palavras. Como se para ele estivesse patente que todos podem entender tudo, desde que cercados do cuidado da elaboração límpida, sincera e, sempre que possível, bela. A simplicidade do estilo é uma forma de cortesia com o leitor.

A obra do escritor Frei Betto tem alguns momentos muito altos, tanto na memorialística e nos escritos ensaísticos como nas experiências literárias mais imaginativas. Cartas da prisão, Batismo de sangue, Fidel e a religião, Aldeia do silêncio, Um homem chamado Jesus e Minas do ouro, já dão sustança para uma carreira prolífica, produtiva e profética.

Seu Diário mais recente se nutre dessa síntese impossível entre as exigências do reino e da matéria, da psicologia e da política, do real e da criação. Quando esses dois mundos parecem ser um só, se antevê a sombra de uma presença nomeável pelos lábios que se movem sem deixar sair qualquer som, como numa oração.

Leia e ouça na íntegra: Brasil de Fato Minas Gerais

João Paulo Cunha é jornalista. Após 18 anos como editor de Cultura do jornal Estado de Minas, pediu demissão quando foi impedido de escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente.

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