21 de janeiro de 2021 by José Nunes

Publicado no site "Como eu escrevo"

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena” (Rocco, 2020).

Lago de Genesaré, também chamado de Mar da Galileia.

 Como você organiza sua semana de trabalho? Você prefere ter vários projetos acontecendo ao mesmo tempo?

Em geral, não tenho rotina, pois em tempos normais viajo muito. Porém, a pandemia me exige isolamento social e, assim, a semana de trabalho é mais previsível. Escrevo pela manhã e à tarde, jamais à noite, quando as musas vão dormir…

Sim, trabalho em vários projetos literários simultaneamente, mas sempre priorizo um deles.

Ao dar início a um novo projeto, você planeja tudo antes ou apenas deixa fluir? Qual o mais difícil, escrever a primeira ou a última frase?

Por vezes o novo projeto me “persegue” por muitos anos. Sinto-me “grávido” dele. Até que decido redigi-lo. Deixo fluir. Faço esquemas simples, muita pesquisa, e redijo manualmente antes de passar ao computador. Exceto artigos e conferências, trabalho sem pressa ou pressão. O mais difícil é encontrar o “sotaque” do texto. A “voz” original.

Você segue uma rotina quando está escrevendo um livro? Você precisa de silêncio e um ambiente em particular para escrever?

Sou muito disciplinado. Escrevo todos os dias, preferencialmente pela manhã. Levanto muito cedo. Quando me canso de um projeto literário, passo a outro, pois trabalho em vários ao mesmo tempo. Quando me sinto árido, sem inspiração, leio clássicos como Machado de Assis, Dostoievski, Cervantes etc.

Para criar ficção, necessito de silêncio e solidão. Artigos e ensaios escrevo em aeroporto ou até em sala de espera de dentista…

Você desenvolveu técnicas para lidar com a procrastinação? O que você faz quando se sente travado?

Deixo de lado o projeto literário A e passo ao B ou paro de escrever e vou ler, de preferência um clássico da literatura, o que me reanima.

Qual dos seus textos deu mais trabalho para ser escrito? E qual você mais se orgulha de ter feito?

O que me demandou mais tempo e pesquisa foi o romance MINAS DO OURO (Rocco), no qual narro 500 anos da história de Minas Gerais. Levei 12 anos para terminá-lo e consultei mais de 100 obras.

Entre meus 69 livros publicados, destacam-se uma meia dúzia que me dão muita alegria, inclusive por nunca saírem de catálogo: CARTAS DE PRISÃO (Companhia das Letras), meu primeiro livro, cujas cartas não foram escritas para serem publicadas; BATISMO DE SANGUE (Rocco), que me exigiu muita pesquisa para desmontar a versão policial sobre a morte de Carlos Marighella, e também ousadia por editá-lo ainda em plena ditadura. Nele descrevo a participação dos frades dominicanos na luta guerrilheira e as torturas e a morte de frei Tito de Alencar Lima; A OBRA DO ARTISTA – UMA VISÃO HOLÍSTICA DO UNIVERSO (José Olympio), fruto de seis anos de pesquisas e que me obrigou a estudar física, química e biologia; FIDEL E A RELIGIÃO (Companhia das Letras), um longa entrevista na qual, pela primeira vez, um líder comunista no poder, Fidel Castro, fala positivamente da religião; o romance policial HOTEL BRASIL – O MISTÉRIO DAS CABEÇAS DEGOLADAS (Rocco), um desafio literário, pois em narrativa policial há que combinar a criação ficcional com a tensão do mistério; UM HOMEM CHAMADO JESUS (Rocco), os quatro evangelhos em forma de romance; e o romance ALDEIA DO SILÊNCIO (Rocco), cujo personagem principal jamais profere uma única palavra.

Veja o conjunto de minhas obras: www.freibetto.org

Como você escolhe os temas para seus livros? Você mantém um leitor ideal em mente enquanto escreve?

Os temas é que me escolhem. Súbito, sou “possuído” pelo tema e, por vezes, levo muitos anos até iniciar o processo de escrita.

Não, jamais imagino um leitor ideal. Aprendi com meu primeiro editor, Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, que o leitor ideal sou eu, ou seja, somente entregar os originais ao editor após sentir esgotado todo o meu potencial criativo e estar convencido de que produzi uma boa obra.

Em que ponto você se sente à vontade para mostrar seus rascunhos para outras pessoas? Quem são as primeiras pessoas a ler seus manuscritos antes de eles seguirem para publicação?

Jamais entrego os originais ao editor sem antes solicitar a meia dúzia de pessoas que leiam. Nunca são as mesmas pessoas. No caso de um ensaio, como A OBRA DO ARTISTA, pedi a vários cientistas e filósofos uma prévia leitura crítica. No caso de um romance, encaminho a quem é afeito a esse gênero literário e me inspira confiança de que fará uma leitura crítica.

Você lembra do momento em que decidiu se dedicar à escrita? O que você gostaria de ter ouvido quando começou e ninguém te contou?

Sim, quando aos 8 anos meu ego bateu no teto da sala de aula ao ouvir a professora Dercy Passos, minha alfabetizadora no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte, dizer à toda classe: “Vocês deveriam fazer como o Carlos Alberto. Ele mesmo escreve as composições dele. Não pede aos pais.” E aos 11 anos ouvi de meu professor de Português no colégio marista, irmão José Henriques Pereira: “Você só não será escritor se não quiser”. Hoje, de tanto escrever, produzi até o livro OFÍCIO DE ESCREVER (Rocco), no qual narro meu trabalho literário e dou dicas a escritores.

Desde criança escrevo muito. Mas supunha que produzir um livro estava muito além de minhas possibilidades e talento. Por isso fui cursar Jornalismo… Foram os generais da ditadura que me promoveram de escritor a autor. As cartas que escrevi em quatro anos de cárcere (1969-1973) foram reunidas aqui fora por Maria Valéria Rezende, hoje uma romancista consagrada, e editadas, primeiro, na Europa.

Gostaria de ter ouvido: “Você tem talento para ser romancista”.

Que dificuldades você encontrou para desenvolver um estilo próprio? Algum autor influenciou você mais do que outros?

Cada novo projeto literário é, para mim, começar do zero e enfrentar muitas dificuldades. Mas não tenho pressa, não comento com ninguém o que estou escrevendo, jamais aceito adiantamento de editor e não marco prazo.

Achar o “sotaque” de uma obra de ficção é sempre um enorme desafio para mim. Sei que meu estilo, por razões óbvias, tem muito de jornalístico, pois estou neste ramo há mais de 50 anos. Felizmente tenho conseguido um tom mais poético em algumas obras, como A ARTE DE SEMEAR ESTRELAS (Rocco) e MINHA AVÓ E SEUS MISTÉRIOS (Rocco).

Sou muito influenciado por Machado de Assis, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Marguerite Yourcenar, Dostoievski, Camus, entre outros.

Que livro você mais tem recomendado para as outras pessoas?

Atualmente, por razões óbvias, o meu mais recente, o DIÁRIO DE QUARENTENA – 90 DIAS EM FRAGMENTOS EVOCATIVOS (Rocco), publicado em fins de 2020.

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